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Famílias enlutadas

Em respeito a você leitor dessa coluna, decidimos colocar uma foto de uma criança com uma flor, pois espalhar o bem é mais gratificante.



Na semana passada, acompanhamos a tragédia em Blumenau-SC, quando um homem de 25 anos invadiu uma creche particular, matou quatro crianças e feriu outras cinco. Dias antes, um adolescente de 13 anos causou a morte de uma professora de 71 anos e feriu cinco pessoas em ataque a uma escola.


Na madrugada de sexta-feira um homem de 32 anos armado com uma faca fez uma refém e machucou seis pessoas em um hospital no interior de São Paulo. Ele foi baleado e morto por um policial.


Os comportamentos violentos, aparentemente gratuitos, sem que tenham sido provocados, foram objeto de estudo e tese de doutorado do sociólogo Marcos Rolim na Universidade Federal do Rio Grande do Sul.


Rolim realizou uma entrevista com um grupo de 111 jovens com idades entre 16 e 21 anos que estavam cumprindo pena na FASE - Fundação de Atendimento Socioeducativo.


O pesquisador acreditava que os relatos dos jovens em conflito com a lei guardassem relação com drogas e problemas familiares, no entanto, o elemento que prevaleceu foi a evasão escolar, seguido da aproximação com grupos “armados” que praticam o treinamento desses jovens a fim de praticarem violência.


No grupo que estava cumprindo pena, todos sem exceção haviam desistido de estudar por volta de onze e doze anos e assim tornaram-se alvo fácil dos grupos que pretendiam aliciá-los para o crime.


Ao final da entrevista com os jovens que cumpriam pena por serem matadores, o sociólogo pedia que indicassem algum colega que não havia se envolvido com o crime e na sequência procurava tais pessoas para entrevistar e pode constatar que os alunos não haviam abandonado os estudos.


As conclusões da pesquisa estão na obra intitulada A Formação de Jovens Violentos - Estudo sobre a Etiologia da Violência Extrema (editora Appris).


Assim, percebe-se que para enfrentamento do problema da violência o ponto fundamental é a evasão escolar. Cabe ao poder público maiores investimentos e também um maior reconhecimento dos professores, sendo primordial o preparo técnico, mas também emocional daquele que ensina, cuida e serve de modelo aos alunos.


A falta de incentivo aos estudos e a necessidade de auxiliar a família financeiramente atinge em cheio a parcela da população mais carente. Com o crime rondando, acabam sendo seduzidos por esse universo, onde acreditam ser melhor remunerados do que a aposta em um futuro profissional.


Quanto aos crimes, o fato é que não estamos preparados para lidar com a finitude da vida, ainda mais de maneira abrupta, violenta e repentina como tem ocorrido com frequência no Brasil e no mundo.

O luto é um processo de rompimento de vínculos importantes e justamente por isso muito particular de cada ser humano, assim, a forma de reagir e enfrentar a situação não é padronizada, na medida em que somos seres únicos e dotados de subjetividade.


O luto não é um processo patológico e sim uma resposta emocional diante da perda e da dor intensa que a pessoa está vivenciando. Passamos por inúmeros processos de luto ao longo da nossa existência, sempre em que há encerramento de um ciclo, como em casos de morte, divórcios, aposentadoria.


Na sequência, explico sobre cada um dos estágios do luto na visão da psiquiatra Elisabeth Kübler- Ross (2005), autora do livro "Sobre a morte e o morrer",

O primeiro estágio é a negação e o isolamento, um mecanismo de defesa temporário, onde a pessoa nega o acontecimento (sente que está em um sonho ruim e pode despertar a qualquer momento) e prefere isolar-se, em evidente recusa ao confrontar-se com a situação. É comum quando a pessoa é informada abruptamente a respeito da morte. É importante salientar que mesmo sendo o primeiro estágio, pode aparecer em outros momentos.


O segundo estágio, surgimento da raiva, acompanhada de ódio, revolta e muitas vezes agressividade. A pessoa é dominada por um sentimento de injustiça e de busca por culpados, com muitos questionamentos, como por exemplo, o porquê está acontecendo com ela e não com outra pessoa.


Em seguida, a negociação ou barganha, uma tentativa de negociar buscando firmar acordos com figuras que segundo suas crenças teriam poder de intervenção sobre a situação de perda. Há nesse estágio uma esperança de reencontro com a pessoa que se foi.


Como quarto estágio, a depressão, acompanhada de tristeza, solidão e muita saudade, sentimentos que refletem a angústia da perda. Este momento em que a aceitação está mais próxima, é de grande reflexão e pensamentos acerca da vida.


Por fim, chega-se ao último estágio, a aceitação, em que a pessoa percebe a necessidade de seguir em frente mesmo diante da perda, pois para si a vida continua, mesmo sem a pessoa ao seu lado.


Como dito, as fases são únicas e subjetivas, não seguem uma duração ou cronologia, a dor é única e pode-se afirmar que não há uma superação perfeita do luto, a saudade vai permanecer. Importante é se permitir sentir a dor, chorar e vivenciar o que está passando naquele momento, apenas assim a pessoa consegue atingir o estágio da aceitação.


No caso das famílias de Blumenau, onde os filhos ainda na infância partiram antes dos pais, houve a inversão na ordem natural dos acontecimentos e portanto, uma maior dificuldade de aceitação permeia o luto que se torna um processo mais longo, cercado de muita culpa, por acreditarem que poderiam lhes proteger e que falharam nessa tarefa.


A Psicologia tem um papel muito importante na medida em que a psicoterapia permite que a pessoa que se encontra em processo do luto entre em contato com as suas dores e liberte-se de suas angústias, percebendo que um ciclo se fechou, mas que a sua vida permanece e merece seguir da melhor forma possível.


Todo nosso respeito e carinho às famílias enlutadas pela violência.


Obrigada por acompanhar o Jornal do Juvevê e a coluna de Psicologia Vida Plena Psi, até a próxima.


Cláudia Ducci Hartmann

Psicóloga CRP 08/37672

@psi.claudiaducci


Revisor:

Maurício Ducci Hartmann


fontes:

Basso, Lissia Ana, & Wainer, Ricardo. (2011). Luto e perdas repentinas: contribuições da Terapia Cognitivo-Comportamental. Revista Brasileira de Terapias Cognitivas, 7(1), 35-43.


Rolim, Marcos. (2014). A Formação de Jovens Violentos - Estudo sobre a Etiologia da Violência Extrema [tese de doutorado]. Universidade Federal do Rio Grande do Sul







93 visualizações2 comentários

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2 comentarios


Invitado
12 abr 2023

Um assunto que nos leva a um elevado estudo apesar de que o luto por ser na maioria das vezes inesperado e portanto muito sentido pela família e pessoas das relações e é claro perceber a necessidade na busca de paliativos e nisso a psicologia pelos conhecimentos disponíveis pode e deve interferir e ajudar amenizando as profundas dores inevitáveis de um luto. Parabéns pela plena exposição esclarecedora deste assunto de tanta profundeza e comoção.

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duccihartmann
21 abr 2023
Contestando a

Agradeço por acompanhar assiduamente a coluna, bem como por seu comentário. Suas palavras são sempre um incentivo para a minha escrita.

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