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A psicoterapia do luto

Jornal do Juvevê, conversou com a psicóloga Fabiana Witthoeft para saber o que é e como trabalha a psicoterapia do luto


O que é a psicoterapia do luto?

A psicoterapia do luto é uma especialidade dos atendimentos psicoterápicos, que auxilia e acolhe o paciente enlutado.


Nem todos os pacientes que passam por uma perda significativa, necessariamente precisam deste espaço.


Alguns chegam ao consultório, apenas querendo saber se o que sentem e vivem em relação a perda está correto ou adequado a perda.


Neste caso, muitas vezes é necessário apenas um aconselhamento usando de psicoeducação para trazer e explicar os aspectos naturais do processo de luto.


Luto não é doença ou psicopatologia. É um processo natural de vivenciar a perda, com reações físicas, emocionais, sociais e espirituais.


A psicoterapia do luto também abraça outras perdas, que não somente perdas por morte. O luto está presente em vários momentos e fases de nossas vidas, como término de relacionamento, aposentadoria, mudança de Cidade, afastamento de amizades, entre outras.


Atuar na psicoterapia do luto, exige conhecimento prévio e específico sobre o assunto, com frequente atualização nos estudos. É necessário escuta empática, para validar o sofrimento e dificuldades dos enlutados.


Como surgiu o interesse por esse segmento da psicologia?

Eu sempre tive interesse pela psicologia hospitalar e cuidados paliativos na faculdade. Mas, acabei me desviando deste caminho porque eu sempre ouvi muito a opinião do meu pai, e ele achava que seria uma rotina de trabalho muito pesada emocionalmente pra mim.


Aí no fim de 2015 o meu pai faleceu de câncer, e eu mergulhei fundo nos estudos sobre luto, morte, perdas. Inicialmente fui procurar informações, para verificar se o que eu sentia era adequado.


Descobri que passei por um processo de luto adiado, porque eu simplesmente neguei minhas emoções mais difíceis tanto no meu luto antecipatório (de quando a equipe médica avisou com uns três meses do falecimento dele, que não havia mais o que ser feito) até os posteriores momentos mais próximos da morte dele em si. Busquei várias formações e leituras, para conseguir ajudar as pessoas a compreenderem algo muito real na morte: não há outra forma de passar por este deserto, sem queimar os pés.


Sofrer é uma manifestação natural na perda. Não há nada obrigatório, certo ou válido. Existe a sua forma de sobreviver aos dias difíceis.


Como é o processo do luto?

Luto é deserto: cansaço, silêncio, tempestade, solidão. Não há como chegarmos ao acesso da água, sem atravessarmos todo este difícil percurso.


Apesar de todo o sofrimento, nosso instinto de sobrevivência pulsa. Vamos em busca da água, por mais doloroso que seja caminhar no deserto.


Não somos nós que escolhemos aonde a água deve estar, para nos aliviarmos da sede. É o deserto que nos oferecerá. Assim como no luto, não escolheremos quando a dor partirá de nós, pois ela decidirá sobre quando deve ir. O que faremos neste percurso até a água, dependerá de nós: da nossa disponibilidade, dos nossos recursos, dos nossos suportes sociais. Luto é processo natural (sem fases, regras ou linearidade): Há dias ruins, muito ruins, desgraçados de ruins, há dias que nem existem.


Entre algumas teorias existentes, explicando os processos que vivenciamos nossas perdas, apresentamos o modelo do processo dual do luto.


Uma teoria, que leva em consideração os aspectos biopsicossociais das pessoas, ou seja, leva em consideração os aspectos biológicos e de saúde, emocionais e sociais de nossas vidas. Podemos explicar esta abordagem através de um longo passeio em uma grande montanha russa.


Quando a montanha russa nos coloca “para baixo”, vivemos intensamente os reflexos desta perda: sofrimento intenso, desorganização cognitiva, choro, episódios depressivos, insônia, problemas alimentares, pesadelos, memórias negativas, confusão mental, entre outros. Em outro momento a montanha russa nos eleva e ficamos “no alto”: conseguimos então trabalhar, cuidar da casa, encontrar com os amigos, ir para a academia. Quando estamos embaixo chamamos este momento de enfrentamento da perda.


Quando estamos em cima, chamamos de restauração da perda. Para estabelecermos um processo de luto, precisamos percorrer por várias vezes este mesmo caminho que necessariamente precisa de oscilação e movimento. Se pararmos na montanha-russa somente embaixo, teremos a tendência de possuirmos um luto mais complicado ou difícil. Se pararmos em cima, corremos o risco de negarmos a perda.


A grandeza do processo está em passar por estes dois lugares, enfrentando conceitos opostos de vida e morte, para que o fim deste passeio também possa ter seus significados e valor.


Em que fase da vida é mais fácil a compreensão do luto?

Particularmente, não acho que exista uma fase da vida mais fácil para compreender o que sentimos, até porque luto é individual e único. Nunca será da mesma forma sempre. Vai depender de muitos fatores, como: o vínculo que você tinha com a pessoa que morreu, a forma da morte, o que você ou sua família estavam vivenciando no momento em que se perde alguém, entre outros.


É claro que uma pessoa idosa, teve a chance de ver muitas pessoas próximas partirem, e é provável que compreenda a morte de uma forma muito mais clara do que uma criança na primeira infância. Mas o compreender não tem conexão com o sentir. Lembrando que as crianças também ficam enlutadas de maneiras muito diversas.



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